A primeira mentira que eu contei por causa de um homem, eu contei aos oito anos de idade, escondido atrás do sofá de uma vizinha.
Era 1988, uma tarde quente na minha cidade, que só tem tarde quente. A gente estava na rua juntando turma pra brincar de esconde-esconde. Faltavam os filhos da Marlene: o Fábio, um pouco mais novo que eu, a Priscila, um pouco mais velha, e um terceiro bem pequenininho, de quem eu não lembro o nome. Eles não saíam sem licença da mãe. Então a turma inteira entrou na casa dela pra pedir.
A Marlene nos recebeu na sala, fazendo as perguntas que mãe faz. A gente respondia com capricho, porque era assim que se convencia uma mãe a liberar os filhos pra rua. A TV estava ligada em algum canto, e ninguém prestava atenção nela.
Eu estava de shorts curtinho, sem camisa por causa do calor. E aqui um detalhe de época: naquela década, todo menino usava shorts curto. Era o normal, ninguém via nada demais. Guarde esse detalhe.
No meio da conversa, a TV passou uma propaganda de cueca. Um homem de cueca, uns poucos segundos, mais nada. Eu vi de relance.
Foi o suficiente. Fiquei excitado na mesma hora, com uma ereção que aquele shorts dos anos 80 não tinha a menor condição de esconder. Oito anos. No meio da sala da vizinha. Sem entender nada do que o meu corpo estava fazendo.
Eu só sabia de uma coisa: ninguém podia ver aquilo. Fui me chegando pra trás, passo a passo, até sumir atrás do sofá.
A conversa continuou sem mim. A Marlene liberou as crianças, a turma foi saindo pra rua, e alguém deu pela minha falta:
— Carlinhos? Cadê o Carlinhos?
— Tô aqui.
— Tá fazendo o que aí atrás?
— Brincando de esconde-esconde.
Foi a primeira desculpa que me veio. E todo mundo acreditou, porque fazia todo sentido: era só um menino brincando.
Eu não sabia o nome exato daquilo que o meu corpo tinha acabado de fazer. Mas eu não era inocente do resto.
Na escola eu já era a bichinha, o viado, o viradinho. Ninguém tinha me explicado nada. Mas todo mundo já tinha me ensinado.
Antes daquela tarde, eu já colecionava apelidos. Bichinha. Viado. Viradinho. Os meninos da escola tinham me escolhido cedo, e cuspiam essas palavras com a mesma certeza com que repetiam tudo que ouviam em casa. Eu ainda não sabia direito o que elas significavam. Mas sabia o tom. Sabia que era pra doer, e doía.
Então, quando o meu corpo reagiu àquele homem de cueca, eu não precisei de ninguém pra fazer a conta. A ligação se fez sozinha, na hora: aquilo que o meu corpo tinha feito era da mesma família daquelas palavras. Era a coisa que os meninos xingavam. Era o que eu não podia ser.
O menino atrás do sofá não tinha vocabulário pra se entender. Mas já tinha vocabulário de sobra pra se condenar. Esse, a escola tinha me dado de graça.
E tinha vergonha. Não a vergonha de quem fez algo errado, porque eu não tinha feito nada. Uma vergonha mais funda: a de sentir, ali pela primeira vez no próprio corpo, que talvez os apelidos soubessem de mim alguma coisa que eu ainda não sabia.
Hoje, perto dos cinquenta, eu consigo olhar pra essa cena com calma e dizer o nome dela: foi uma das minhas primeiras memórias gays. Talvez a primeira em que o corpo falou tão claro.
Ele soube antes de mim. Anos antes de eu ter paz com qualquer palavra pra aquilo, o meu corpo respondeu do jeito mais natural do mundo, porque era natural. O que não era natural era o resto: um menino de oito anos já ter aprendido, na boca dos outros meninos, que aquilo que ele era vinha com apelido.
Não tem vilão nessa história, nem mesmo os meninos que me xingavam. Eles repetiam o que ouviam em casa, com a mesma inocência com que eu não entendia o meu próprio corpo. A Marlene era só uma vizinha gentil, a propaganda era só uma propaganda, o shorts era só a moda da época. O que tem é um menino atrás de um sofá, esperando o corpo voltar ao normal pra poder sair e brincar com os outros.
Quando eu disse que estava brincando de esconde-esconde, era só a primeira desculpa que me veio. Hoje eu entendo que continuei nessa brincadeira por muitos anos. Me esconder foi uma das primeiras coisas que eu aprendi a fazer bem.
Demorei pra sair de trás do sofá. Mas saí.
E você? Quantos anos você tinha quando aprendeu a esconder alguma coisa que ninguém nunca te explicou? Me conta. Eu quero ouvir a sua memória também.