Num sábado de dezembro de 2020, eu saí de casa pra comprar tomada e interruptor, e voltei apaixonado.
Era fim de pandemia. A vacina estava chegando, as coisas reabrindo, a vida ensaiando voltar. Eu tinha comprado um apartamento e estava nos últimos dias da reforma. A arquiteta me passou uma lista de material elétrico, então fui pra rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo, atrás de LED, tomada, interruptor, essas coisas.
Passei horas ali, de loja em loja, enchendo o porta-malas do carro no estacionamento e voltando pra comprar mais. Quando terminei, sentei num bar em frente pra comer um salgado e tomar um refrigerante. E abri o Grindr.
Um perfil sem foto me chamou. A conversa foi curtíssima, dessas de “como você está, tudo bem”. Trocamos foto. Ele morava a poucos metros dali. Eram umas três da tarde, eu já estava de saída, e mesmo assim a gente decidiu se conhecer ali, naquele instante.
Combinamos que não ia acontecer nada. Só um oi, só pra botar um rosto na pessoa. Subi no apartamento dele com essa promessa na cabeça.
Aí ele abriu a porta.
A gente se olhou, se abraçou, se beijou. E foi nesse beijo, na porta do apartamento de alguém que cinco minutos antes era um perfil sem foto, que eu me apaixonei. À primeira vista, do jeito que eu achava que só existia em filme.
Eu saí de casa pra comprar interruptor e voltei querendo passar o resto da vida com um homem que eu tinha acabado de conhecer.
Ele estava de saída pra encontrar uns amigos num barzinho. A gente mal teve tempo, foram beijos, abraços e conversa solta, porque ele já precisava ir. Então eu ofereci: deixa que eu te levo, é quase o caminho de casa, e a gente fica mais um pouco junto. No carro, foi como se a gente já se conhecesse há anos. Química, sinergia, aquela troca de energia que não dá pra explicar. Tudo encaixava.
Deixei ele no bar e segui pra casa, mas a gente já estava combinando de se ver mais tarde. Larguei as compras, tomei banho, comi qualquer coisa, e voltei. Dormi na casa dele naquela mesma noite. Era 5 de dezembro de 2020.
No dia seguinte, a caminho de encontrar ele de novo, parei num mercado e achei flores. Comprei uma orquídea e um chocolate. E pedi ele em namoro. No segundo dia depois de a gente se conhecer. Ele disse sim.
Eu nunca tinha acreditado em amor à primeira vista. Sempre achei que fosse conversa, coisa de música brega, invenção de novela. E aconteceu comigo num sábado banal, entre um salgado e um porta-malas cheio de tomada.
Não teve nada de racional. Eu não estava pensando, eu estava sentindo, e sentindo tudo no volume máximo. Já no segundo dia eu tinha aquela vontade boba e enorme de estar junto o tempo todo, o coração disparado quando o celular vibrava, a certeza doida de que aquilo era diferente de tudo que eu já tinha vivido.
Hoje, quando eu lembro daquele sábado, o que me vem não é a lista de material elétrico que eu fui comprar. É a porta se abrindo. É o beijo. É a orquídea que eu escolhi no mercado no dia seguinte, ainda sem acreditar direito na sorte que eu tinha.
Tem paixão que começa devagar, que vai se descobrindo aos poucos. A minha começou inteira, de uma vez só, no meio de uma tarde de sábado, com um homem que cinco minutos antes era um perfil sem foto. E eu não troco aquele começo por nada.
E você? Já se apaixonou assim, à primeira vista, do jeito que faz a vida inteira mudar de cor num só dia? Me conta. Eu quero saber se foi só comigo.