Voltei ao Posh no dia seguinte e fiquei no meio do balcão, como o senhor canadense tinha sugerido. Não deu dez minutos.
Um rapaz do outro lado do bar começou a olhar pra mim. Alto, bonito. Eu olhei de volta. Ficamos naquilo um tempo, um olhando pro outro, aquele jogo que eu conhecia de ouvir falar e nunca tinha jogado. Até que ele atravessou o bar e veio.
Se apresentou. Greg. E logo emendou que estava ali com o amigo, o Erik, e me chamou pra ficar com eles.
Eu disse sim na hora. Por dentro, o que eu senti foi alívio, porque nos minutos anteriores eu já tinha decidido sozinho que aquele homem era casado, ou namorado de alguém, e que eu ia acabar levando um fora educado. Ele fez questão da palavra amigo. Isso me deixou feliz de um jeito que eu não saberia explicar na hora.
Ficamos bebendo e conversando, e era tudo muito bom. Em algum momento duas garotas entraram na conversa, um casal, uma colombiana que morava em Nova York e uma americana, moravam juntas. Viramos um grupo de cinco. Pra mim, aquilo era descoberta pura. Eu nunca tinha estado num lugar assim, cercado de gente assim, conversando sobre qualquer bobagem às duas da manhã.
As meninas sugeriram outro bar, a dois quarteirões. Fomos andando. Chegamos e o lugar estava absurdamente cheio, não dava pra andar nem pra conversar. Tomamos uma rodada de tequila em pé, no aperto, e todo mundo chegou junto à mesma conclusão: melhor voltar pro Posh. E voltamos.
Foi aí que apareceu o outro.
Um rapaz alto, mais ou menos da altura do Greg. Eu tenho um e setenta e quatro, o Greg devia ter um e oitenta e cinco, e esse aí batia no mesmo lugar. Traços de Oriente Médio, uma beleza de presença forte, dessas que ocupam o espaço quando chegam. Ele se aproximou e começou a puxar assunto com o Greg. E não parava.
Eu comecei a ficar incomodado. Repara no tamanho disso: eu tinha conhecido aquele homem havia poucas horas e já estava ali me sentindo deixado de lado. Não era bem ciúme. Era uma coisa mais simples e mais antiga, a sensação de que a atenção ia embora e eu não tinha nenhum direito de reclamar.
Eu não falei nada. Mas ele viu.
Em algum momento ele se virou pra mim e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que sim, claro, que ele podia continuar conversando com o amigo dele. Aquela resposta que diz uma coisa querendo dizer exatamente o contrário, e que qualquer pessoa decifra.
“Claro que não. Eu estou aqui com vocês, e é com vocês que eu quero ficar.”
Ele encerrou a conversa com o outro rapaz e voltou pro nosso grupo.
Ficamos ali até umas quatro, cinco da manhã. E, até aquela hora, nada tinha acontecido. Nenhum beijo, nenhuma frase dita em voz alta sobre o que a gente queria. Só aquela certeza no ar.
As meninas foram embora. A gente saiu também. O meu hotel era ali, quatro ou cinco quadras, dava pra ir andando. O Erik foi até a esquina procurar um táxi pros dois.
E o Greg veio até mim e disse “I’m sorry”. Pediu desculpas por ter que ir com o amigo, e disse que queria muito me ver de novo, se eu também quisesse.
Eu fiquei encantado. Foi cena de filme, dessas que eu achava que não aconteciam fora do cinema. O amigo na esquina acenando pra um táxi, nós dois sozinhos na calçada de madrugada, e ele me beijou.
Trocamos telefone. Eles entraram no táxi e eu voltei pro hotel flutuando, literalmente flutuando, andando sozinho de madrugada em Nova York com um sorriso bobo na cara.
No dia seguinte ele deixou o Erik no aeroporto e seguiu mais pro norte, pra passar uns dias com a família. Eu fui pra Orlando. E a gente não parou de trocar mensagem, ele repetindo que queria me encontrar de novo, eu contando os dias. A geografia ajudou: quando eu voltasse de Orlando pra passar os últimos dias em Nova York, ele estaria voltando pra Washington, e Nova York ficava no caminho.
Ele chegou no fim de uma tarde. E dormiu no meu hotel.
A gente fez sexo naquela noite, e foi diferente de tudo que eu conhecia até então. Teve tempo. Teve carinho antes, e teve carinho depois, que era a parte que nunca existia na minha vida. Teve intimidade, uma palavra que eu nem usava pra esse território. Ninguém ali estava com pressa de terminar e ir embora, e pressa de ir embora era exatamente o formato de tudo que eu tinha vivido até aquele dia. Foi mágico, e mágico é a palavra mesmo, porque na hora eu não tinha vocabulário melhor pra nomear o que estava acontecendo comigo.
Mas não foi o sexo que me marcou.
Foi ter alguém dormindo no meu quarto.
Eu tinha 31 anos e nunca tinha passado a noite inteira com ninguém. Nenhuma vez. Tudo que eu tinha vivido até ali era furtivo, rápido, feito pra terminar antes que alguém percebesse. Acordar com uma pessoa do lado era uma experiência que simplesmente não existia na minha vida. E ali estava ela, com um homem que, apesar de toda a química, ainda era um desconhecido pra mim.
Eu estava assustado. E fiquei.
No dia seguinte acordamos cedo e fomos tomar café. Ele estava de carro e passou o dia inteiro me mostrando Nova York. Museu, um lugar e outro, um monte de coisa que ele fazia questão que eu visse. Em certo momento disse que eu precisava conhecer Staten Island, porque de lá saía a foto bonita do sul de Manhattan. Fomos. Tiramos a foto.
No fim do dia ele voltou pra Washington. Eu ainda fiquei mais um ou dois dias e peguei o avião pro Brasil. E a gente continuou se falando todo dia.
Hoje eu entendo o que aquela viagem fez comigo, e não foi nada do que eu imaginava antes de embarcar.
Eu fui pra Nova York achando que ia conhecer uma cidade. Voltei sabendo que existia uma versão possível da minha vida em que eu podia estar com alguém à luz do dia.
E o mais especial de tudo nem foi a noite. Foi o dia inteiro depois dela. Ele fazendo questão de me levar num lugar e noutro, de me mostrar a cidade dele, de dizer que eu tinha que ver aquela vista dali, daquele jeito, porque a foto ficava bonita. Alguém querendo passar o dia comigo, em público, à toa, sem nenhum outro motivo além de querer.
Teve o beijo na calçada, que foi mágico do jeito que só o inesperado consegue ser. E teve ele ter percebido, sem eu dizer uma palavra, que eu estava me sentindo deixado de lado, e ter escolhido ficar.
Um mês depois de eu voltar pro Brasil, o Greg recebeu um diagnóstico de câncer no cérebro.