Levantei da mesinha assim que ele desviou o olhar e saí andando rápido, sem olhar pra trás. Foi a primeira vez que fugi de um bar gay. Também tinha sido a primeira vez que entrei em um.

Era dezembro de 2011, minha primeira viagem internacional. Eu tinha 31 anos, estava de férias, e o roteiro era Nova York, Orlando e Nova York outra vez. Fiquei num hotel a uns trinta metros da Times Square. Internet no celular já existia, mas era 2011, nada de aplicativo bonitinho te levando pela mão. Fiz umas buscas simples e achei alguns bares gays ali perto.

Eu nunca tinha pisado num bar gay na vida. Nunca tinha ido a uma balada gay. Discoteca eu nem frequentava. Então entrar naquele lugar, onde só havia homens, com gente me olhando, me paquerando, foi estranho e bom ao mesmo tempo.

Tinha um rapaz muito bêbado. Ele quis me beijar, e a gente se beijou, mas foi um beijo de quem mal parava em pé. Aquilo já me incomodou. Ficamos conversando, o meu inglês dava pro gasto, longe da fluência de hoje. E em algum momento ele começou a me chamar pra ir pra casa dele.

Foi aí que o chão sumiu.

Comecei a imaginar tudo de pior. Esse homem vai me matar. Vai me desovar em algum canto da cidade. E quando ligarem pra minha família, ninguém lá em casa fala inglês, ninguém vai nem entender o que aconteceu comigo. Foi só nisso que eu consegui pensar, e pensei em looping, cada vez mais rápido.

Esperei ele se distrair. Levantei. Saí.

Andei um quarteirão e entrei em outro bar, o Posh. O ambiente era mais calmo. Sentei na ponta do balcão, quase colado na entrada, e pedi uma bebida. Do meu lado tinha um senhor canadense, de uns quarenta e poucos anos, morando em Nova York havia mais de vinte. Puxamos conversa. De onde eu era, o que eu fazia, o que ele fazia. Nenhuma paquera, nenhuma segunda intenção, só duas pessoas conversando num balcão. E aquilo me acalmou.

Foi no meio dessa conversa que a porta abriu e o rapaz bêbado entrou.

Ele continuava muito bêbado. Passou reto e foi direto pro fundo do bar. Não me viu. Eu estava ali, na pontinha do balcão, a poucos passos da porta por onde ele tinha acabado de entrar, e ele não me viu. Ficou um tempo lá atrás e foi embora sem nunca olhar na minha direção.

Um pouco depois, o canadense disse que precisava ir, tinha compromisso no dia seguinte. E antes de sair me deu um conselho.

“Volte aqui amanhã. Você é bonito, é jovem, vai conhecer gente interessante. Mas não fique aqui no canto. Fica no meio, que é onde as pessoas vão te ver.”


Na hora, eu não tinha tamanho pra entender aquele medo. Eu vinha de um país onde nunca tinha entrado num bar gay, falava um idioma que eu dominava só até certo ponto, estava sozinho do outro lado do mundo, sem nenhuma rede embaixo de mim. Qualquer sinal de perigo virava catástrofe inteira na minha cabeça.

Eu não sabia separar o cuidado do pânico, e naquela noite os dois vieram grudados. Um homem bêbado insistindo pra eu ir pra casa dele merecia mesmo a minha cautela, isso era real. Mas o assassinato, a desova, o telefonema que ninguém em casa entenderia, isso fui eu que inventei, sozinho, em poucos minutos.

Também não entendi o conselho do canadense. Achei que fosse dica prática de quem já conhecia aquele mundo. Fica no meio, não no canto. Só isso.


O canto me escondeu. Foi bem ali, na ponta do balcão, quase na porta, que o rapaz bêbado passou por mim sem me enxergar. O lugar que eu escolhi por medo funcionou como esconderijo, e funcionou muito bem.

Era exatamente esse o lugar de onde o canadense estava me mandando sair.

E eu voltei ao bar no dia seguinte, fiquei no meio do balcão como o senhor canadense sugeriu, e foi a melhor coisa que eu fiz naquela viagem.