Tinha um caminhão parado na frente de casa, e dormir dentro dele era o melhor prêmio que um menino como eu podia ganhar. Naquela noite eu ganhei. E foi lá dentro que me aconteceu uma coisa que eu levaria quarenta anos pra entender.
Era 1990, mais ou menos, e eu tinha dez anos. Meu padrasto era caminhoneiro, e pra gente, que nunca teve nem carro, aquele caminhão era um mundo inteiro. Às vezes ele deixava a gente viajar junto, do lado dele na estrada, vendo lugar que a gente nunca tinha visto. Eu o chamava de pai. Desde pequininho, quando me escapava um “tio”, ele corrigia na hora: “tio não, pai”. E ficou pai.
Quando ele viajava de madrugada, o caminhão passava a noite parado na porta de casa, e alguém sempre dormia lá dentro pra ninguém mexer. O banco reclinava até o fim, ficava todo na horizontal e virava uma cama de verdade. Naquela noite, os escolhidos fomos eu e o filho mais velho do meu padrasto, os dois maiores, os mais comportados.
Ele tinha uns dois, três anos a mais que eu. Ainda era um menino, brincava de carrinho na terra com a gente. Mas a cabeça dele já estava num lugar que a minha ainda não alcançava.
A gente se deitou. A certa altura, meu pai bateu na porta do caminhão pra ver se estava tudo certo. A gente abriu, disse que estava tudo bem, e estava mesmo, tudo escuro, todo mundo indo dormir. Ele voltou pra casa.
Foi aí, no escuro, que a brincadeira virou outra coisa.
Ele encostou o corpo no meu. Depois encostou o pênis na minha bunda. Não teve penetração, foi a fricção, mas era como se fosse. Eu fiquei excitado, ele também. Ficamos assim por alguns minutos, no escuro, dentro daquele caminhão.
Quando acabou, eu estava todo melecado. Uma coisa quente e grudenta escorrendo na minha bunda, e eu sem fazer a menor ideia do que era. Era esperma. Porra. Eu nunca tinha nem ejaculado na vida, não sabia que aquilo existia, não tinha nome pra dar pra aquilo. Só sabia que estava melado, e que me dava um nojo que eu não conseguia explicar.
Eu tinha dez anos de idade quando um homem gozou em mim pela primeira vez. E eu só fui entender isso muitos anos depois.
Naquela noite, eu não achei que tinha sido abusado. Juro que não passou pela minha cabeça.
Mas também não podia demonstrar nada. Fiquei quieto no escuro, limpando a bunda escondido, com uma sensação que eu não sabia onde encaixar. Eu não tinha idade pra saber o que era aquilo, mas já tinha idade de sobra pra guardar segredo.
O que me puxou pra ali não foi entender. Foi curiosidade, foi o proibido, e foi uma coisa que só muito depois eu soube nomear: eu queria afeto. Queria colo de homem, queria atenção, queria pertencer a alguém. Eu era um menino procurando carinho no primeiro lugar escuro que apareceu.
Talvez seja por isso que, a vida inteira, o que eu mais quis foi beijo. Pra mim, beijar sempre foi a coisa mais íntima que existe, mais até do que o resto. Beijo é conexão, é ser querido. Eu acho que, lá atrás, era isso que eu procurava sem saber o nome. E era isso que ninguém tinha me dado no tempo certo.
Hoje eu sei o nome do que aconteceu naquele caminhão. Foi abuso.
Não escrevo isso pra acusar ninguém. O menino mais velho também era um menino, vindo de uma casa mais quebrada que a minha, de pais que bebiam demais pra dar conta de cuidar. Isto aqui não é dedo apontado, é só a minha memória, enfim com as palavras que ela não teve na hora.
Mas uma criança de dez anos não tem como consentir. Ela não tem tamanho pra isso. E o mais duro de encarar é onde aquilo aconteceu: dentro de casa. Dizem que a maior parte dos abusos vem de dentro, de gente conhecida, debaixo do mesmo teto. Eu sou uma dessas estatísticas, e levei quarenta anos pra ler essa frase e me reconhecer nela.
Meu pai estava a poucos metros. Bateu na porta, perguntou se estava tudo bem. E estava tudo escondido, tudo furtivo, do jeito que eu aprendi cedo demais a esconder as coisas. Quem podia me proteger não protegeu, não por descuido, mas porque nunca soube. E ninguém protege do que nem imagina que está acontecendo.
Eu não carrego isso como um trauma aberto. Carrego como uma coisa que eu finalmente entendo. E entender, no meu caso, foi o jeito mais silencioso de deixar aquele menino sair do escuro do caminhão.
E você? Quantas coisas você viveu quando criança que só foi entender, de verdade, muitos anos depois?
E se você tem filhos, me diz: o que você faz pra perceber aquilo que uma criança ainda não tem palavra pra contar? Que precauções você toma dentro da sua própria casa? Porque, quase sempre, o abuso não vem de um estranho na rua. Ele já está dentro de casa, e conta com o silêncio pra continuar.