Eu estava de calça nova, em pé no provador, e o vendedor estava ajoelhado na minha frente, a boca cheia de alfinetes, marcando a barra. A loja lotada do outro lado da porta, gente entrando e saindo dos outros provadores. E foi ali, naquele lugar cheio de olhos, que o meu corpo me entregou.

O ano era 2011. Eu tinha sido promovido fazia pouco, uma função equivalente a gerente numa empresa pública, e de repente precisava me vestir à altura do cargo. Não que eu me vestisse mal, mas me vestia um pouco aquém do que a função pedia. Então comecei a comprar roupa melhor, e foi assim que descobri aquela loja de roupas masculinas na minha cidade. Uma loja grande, bem conceituada, com vários vendedores e alfaiate próprio, dos que faziam o ajuste ali mesmo e marcavam o dia de você voltar pra buscar. Eu gostava daquilo, era tudo fácil.

Logo nas primeiras vezes, quem me atendeu foi um vendedor que eu já achei bonito. Vou chamá-lo de Renato. E, dali em diante, toda vez que eu chegava, era ele que vinha, nenhum outro. Eu ia provar uma calça, uma camisa, um terno, e ele ficava por perto, atencioso, trazendo outra peça, outro número. Numa dessas, eu estava no provador só de cueca quando ele abriu a porta pra me entregar a calça. A velha cena clássica do provador. Passou uma tensãozinha no ar, mas foi de relance, e eu provei a calça.

No fim escolhi a que ia levar. Só que a que eu mais gostei tinha ficado um pouco grande, precisava ajustar a barra. E aí veio o que eu não esperava. Ele se ajoelhou na minha frente com os alfinetes pra marcar a bainha, eu de calça vestida, ele ali embaixo, e eu comecei a ficar excitado. Muito. A ponto de não ter como disfarçar. E ele percebeu, e não desviou. A gente começou a trocar frases soltas, qualquer assunto, só pra dar conta daquela tensão, só pra fingir que não estava acontecendo o que estava. Mas já tinha acontecido: os dois ali sabiam exatamente o que queriam do outro. Ele subiu a marcação pra cintura, pra ver se precisava de ajuste, e a mão dele passou sobre o meu pau. De leve, como quem não quer, mas querendo.

E aquilo virou um jogo. Toda vez que eu voltava, e eu voltava bastante, tinha a mesma coisa no ar: o flerte, a tensão, uma química boa que corria solta entre a gente enquanto ele media uma manga ou ia buscar um número maior. Não era só meu, era dos dois, e nós dois sabíamos. Era um provador de porta, dessas simples, com uma travinha que mal prendia e que quase sempre ficava aberta pra ir e vir com as peças. A loja cheia do lado de fora, e nós ali brincando de disfarçar uma coisa que era gritante. Com o tempo, imagino que os outros vendedores já tivessem sacado, mas ninguém falava nada. Era um segredo que todo mundo via e que ninguém dizia em voz alta. E era gostoso demais.

Foi indo assim, até que num dia a gente saiu da loja pra beber alguma coisa. E, quando dois homens saem assim, já está tudo entendido. Fomos pra casa dele. Ele tinha morado fora um tempo e voltado havia pouco pro Brasil, morava com a mãe, num puxadinho nos fundos. Teve até um perrengue com a chave na hora de entrar, ele precisou ligar pra mãe pra saber onde ela tinha deixado. A gente entrou, e ali aconteceu, enfim, o que já vinha se anunciando havia semanas naquele provador. Foi bom. Eu gostava de estar com ele, ficava animado feito menino.

No provador de porta mal fechada, com a loja cheia do lado de fora, o meu corpo disse em voz alta o que a minha vida ainda não me deixava dizer.

Depois disso a gente tinha o telefone um do outro e se via fora da loja também, e eu ainda continuava indo comprar roupa, porque era mesmo uma época de renovar o guarda-roupa inteiro. Só que, em algum canto de mim, eu já queria algo com ele que fosse além de só curtir. Não que eu estivesse pensando em namoro. Namoro, naquela época, era uma palavra grande e meio assustadora pra quem ainda não tinha se assumido. Mas era mais do que o encontro em si. Era querer a pessoa, e não só o momento.

Só que eu ainda não tinha saído do armário. E quando você vive dentro do armário, você aprende a querer escondido, do mesmo jeito que aprende a disfarçar uma ereção no meio da loja. O desejo pode vir inteiro, mas tem que caber num espaço apertado, sem ninguém ver, sem dar nome. Eu mal conseguia admitir pra mim mesmo o tamanho do que eu queria, imagina pedir.

E o Renato queria outra coisa. Ele estava num momento de experimentar, de estar com gente, sem compromisso nenhum. Não era maldade, era só um outro lugar. Só que eu, ali, confundia a intensidade daquele tesão com o começo de alguma coisa, e ficava meio à espera do que nunca ia acontecer. Depois de um tempo fui transferido de cidade, veio outra promoção, e a gente foi se perdendo, sem briga, sem fim marcado. Do jeito que se perde o que nunca chegou a ter forma.

Hoje eu olho pra aquele provador e entendo uma coisa que na época me escapava inteira. O meu corpo, com o vendedor ajoelhado na minha frente, já estava dizendo em voz alta o que a minha vida ainda não deixava eu dizer. A ereção que eu não consegui esconder era a coisa mais honesta que tinha ali. Eu passei tanto tempo aprendendo a disfarçar o que sentia que, quando o desejo veio sem pedir licença, ele me pareceu quase um acidente, uma falha no disfarce. E não era. Era eu.

Nove anos depois daquele provador, num sábado qualquer, eu ia sair de casa só pra comprar tomada e interruptor, e voltaria sem conseguir esconder uma coisa muito maior. Mas essa já é outra história. O que importa aqui é que o rapaz de 2011, de calça nova e vergonha nova, ainda não sabia que esse dia ia chegar. Hoje o Renato é meu amigo. A gente atravessou o tempo e virou outra coisa, mais leve, sem a tensão daquela porta de provador. E eu guardo aquele rapaz com uma ternura que, na hora, eu não soube ter por mim. Ele não estava fazendo nada de errado. Ele só ainda não sabia que tinha o direito de querer alguém à luz do dia.

E você, já quis alguém que a sua própria vida ainda não deixava você querer em voz alta? Me conta. Eu queria saber se você também aprendeu a desejar escondido antes de aprender a desejar em paz.